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Submetido à publicação no jornal "Hoje em Dia", Novembro de 1999.
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A civilização, para ser humana, precisa sonhar com arte e criatividade.
A cultura brasileira é rica e bela, mas preservação não significa isolamento. Ao contrário, somente a troca de idéias e comparação com outros valores é que permite um desenvolvimento saudável de uma nação. Por isso, após uma inspiradora viagem à Inglaterra, País bastante eclético às artes, gostaria de compartilhar minha experiência, divulgando os novos rumos das artes mundiais.
O que escrevo aqui é apenas um conjunto de observações em curta vivência musical européia. É possível que minhas conclusões não representem a imagem completa do ambiente, mas de qualquer maneira servem como fundamento para futuras meditações.
A grande oportunidade que se tem em festivais internacionais é conhecer músicos notáveis. Muitos me perguntam se algumas semanas são suficientes para se aprender alguma coisa em tais cursos. Isso realmente depende do professor e do objetivo do aprendiz, de modo a aproveitar as aulas ao máximo. O curioso é que somente a experiência da participação já pode ser suficiente para gerar novas perspectivas! Também os contatos com colegas de vários países são importantes, tanto para a divulgação do trabalho quanto para o intercâmbio cultural.
Em festivais de verão da Inglaterra, dos quais participei em 1997 e 1999, pude conhecer algumas personalidades européias. Em especial, Ruggiero Ricci, famoso violinista, último e grande representante do auge do Romantismo. Apesar da idade avançada, executa de memória todo o repertório violinístico! Ele é o contra-exemplo do mito de que todos os gênios são excêntricos: pelo contrário, Ricci se mostra extremamente atencioso, bem-humorado, e devotado ao correto ensinamento da arte de tocar violino.
Nas classes do Ricci é que finalmente observei a "super-interpretação". Raro no Brasil, devido à falta de competição no meio, o fenômeno é classificado pelo próprio Ricci de "música histérica". Na ânsia de impressionar o público, os artistas tentam exagerar a expressividade. Uma reflexão mais cuidadosa pode até assustar: isto não será um reflexo da correria cega da humanidade? De acordo com o próprio mestre, as músicas contemporâneas ampliam dois tipos de sentimentos: medo e desespero!
Em conversas informais, Ricci lembra que suas melhores lembranças de toda a carreira vem do Brasil! Minha opinião é que temos significativo diferencial dos europeus, não somente pela característica social, mas pelo singular desenvolvimento cultural. Várias vezes fui solicitado a apresentar músicas brasileiras, tanto na Inglaterra quanto na Suécia, e a manifestação coletiva nunca é indiferente: muitos especialistas sentem-se confusos e até incomodados, mas a maioria recebe a mensagem com entusiasmo! Por exemplo, a crítica mais estranha que ouvi, com relação ao Guarnieri, é de que sua Sonata teria pouca variedade... É surpreendente que os europeus não conseguem compreender os elementos da linguagem brasileira, mesmo após o grande marketing de Villa-Lobos. Eles continuam se embriagando com a exuberância rítmica e modal da nossa música, apesar de toda construção tradicional e até mesmo clássica que esta possa ter!
Outra indagação frequente é sobre possíveis preconceitos sofridos na Inglaterra. Parece-me que os artistas são muito respeitados na Europa. A boa notícia é que os bons artistas brasileiros destacam-se frequentemente. Menciono isso porque a preocupação nacional é ter boa técnica. Mas técnica é o menor detalhe na criação artística! (apesar de fundamental). Aos que ultrapassam as barreiras meramente técnicas, o nosso clima tropical automaticamente nos impregna com uma vantagem adicional, que sempre chama atenção: a "interpretação quente". A outra face da moeda, que muitos ignoram, é o preconceito no Brasil! Em maior escala aos músicos estrangeiros, em menor escala aos próprios colegas! A falta de competição cria uma exaltação à mediocridade, bastante negativa para nosso desenvolvimento. É com os estrangeiros que podemos aprender e comparar a qualidade, mas devemos nos conscientizar das raízes nacionais e trabalhar pelo desenvolvimento cultural sadio.
Aproximando-se o jubileu do encontro das culturas no Brasil, talvez a melhor forma de refletir sobre tudo isso é fazer música!